A discussão sobre mulheres e tecnologia não deve mais se limitar apenas à inclusão. Em 2026, o ponto de partida para as empresas é outro: a escassez de talentos digitais já é um problema operacional e de competitividade. O Fórum Econômico Mundial identifica as lacunas de habilidades como a principal barreira para a transformação empresarial no período de 2025 a 2030, enquanto o BID analisou mais de 6,2 milhões de vagas digitais em 15 países da América Latina entre 2022 e 2025 e constatou um mercado em transição, com claro crescimento em habilidades tecnológicas e um aumento especialmente rápido de vagas ligadas à inteligência artificial em 2025. No México, o BID relata que 68% dos empregadores tem dificuldade em encontrar perfis qualificados em habilidades digitais; no Brasil, a Brasscom estima um desfasamento de 30,2% entre a oferta e a demanda por profissionais de tecnologia.
Nesse contexto, ampliar o acesso das mulheres a cargos na área de tecnologia não é filantropia: é uma estratégia de gestão de talentos. A McKinsey e a Laboratoria alertam que a América Latina passou por um boom de tecnologias digitais, mas as mulheres ficaram para trás, e destacam que fechar a lacuna de gênero na tecnologia poderia beneficiar organizações de todos os setores. O próprio Fórum Econômico Mundial aponta que a possibilidade de ampliar a disponibilidade de talentos por meio de pools diversificados é hoje muito mais valorizada pelos empregadores do que há dois anos.
Além disso, a disparidade continua sendo concreta e mensurável. O Banco Mundial destaca que, na América Latina e no Caribe, as mulheres são menos propensas a receber formação em tecnologia digital, a se sentirem seguras em relação às suas habilidades e a trabalhar no setor digital; no Brasil, por exemplo, apenas 32% das mulheres usam a internet para fins profissionais ou produtivos, contra 44% dos homens. No México, no entanto, quando as mulheres conseguem ingressar em ocupações de TIC, elas têm acesso a melhores condições de trabalho: 71% trabalham no setor formal, contra 44% da média das mulheres empregadas; sua renda média é 56% maior e 65% tem acesso a benefícios, contra 38% em outros setores.
O sinal do mercado: 10 perfis tecnológicos que as empresas continuarão precisando
1. Analista de segurança cibernética
A segurança cibernética continuará sendo uma das áreas mais sensíveis para o mercado. O Fórum Econômico Mundial (WEF) destaca redes e segurança cibernética entre as habilidades que mais crescerão até 2030. No Brasil, a Brasscom classifica o analista de segurança da informação entre os perfis mais importantes tanto para o setor de tecnologia quanto para o mercado de trabalho brasileiro em geral, e o BID identifica que, no México, a lacuna se intensifica justamente em áreas como segurança cibernética, nuvem, IA e análise de dados.
2. Especialista em redes e infraestrutura
Nem todo o emprego na área de tecnologia está relacionado ao desenvolvimento ou à IA. Na Costa Rica, o BID constatou que, nos últimos 12 meses, a maior parte das contratações em TI concentrou-se em infraestrutura e plataformas (26,3%), à frente do desenvolvimento. No Brasil, a Brasscom destaca entre as certificações mais procuradas redes de computadores avançadas, computação em nuvem e infraestrutura e suporte de TI. Para empresas que operam em ambientes híbridos, redes, plataformas e suporte continuam sendo funções essenciais.
3. Help Desk, service desk e suporte de TI
Se uma organização deseja ampliar sua base de talentos, não pode ignorar os cargos de nível inicial. Na Costa Rica, o perfil mais procurado para os próximos 12 meses foi HelpDesk (21,7%), seguido por “outro perfil de TI” com funções de suporte, ETL e relatórios. Isso é importante porque os cargos de suporte técnico costumam ser um dos caminhos mais realistas para a inserção inicial e a evolução posterior para redes, nuvem, segurança cibernética ou administração de sistemas.
4. Testador de controle de qualidade e analista de qualidade de software
A qualidade do software continuará sendo uma necessidade constante em 2026. Na Costa Rica, a qualidade representou 7,4% das contratações recentes de TI, e entre os perfis mais procurados para o próximo ano aparece o analista de QA (6,2%). Além disso, o estudo regional do BID mostra que, em alguns mercados da região, a categoria de garantia de qualidade aparece repetidamente entre as ocupações que mais exigem habilidades digitais.
5. Analista de dados
Os dados já não são um nicho; são a infraestrutura da tomada de decisões. O Fórum Econômico Mundial (WEF) considera IA e big dados como a habilidade de crescimento mais rápido, e o BID relata um aumento particularmente acelerado de vagas relacionadas à IA na América Latina até 2025. Na Costa Rica, analista analista aparece entre os dez perfis de TI mais procurados para os próximos 12 meses, e no Brasil a Brasscom coloca o analista e cientista de dados entre os perfis mais importantes do setor.
6. Engenharia de dados e perfis de dados avançados
A demanda não se limita à análise descritiva. Na Costa Rica, engenheiros também também figura entre os perfis com maior expectativa de contratação no curto prazo. No Brasil, a Brasscom volta a destacar os perfis de dados entre os mais procurados, sinal de que a cadeia de valor dos dados continua se expandindo, desde a análise até a integração, modelagem e exploração avançada de informações.
7. Desenvolvedora de backend, full stack e web
O desenvolvimento continua sendo uma das principais apostas do mercado. O Fórum Econômico Mundial (WEF) classifica os software e aplicativos de aplicativos entre os empregos tecnológicos que mais crescem. Na Costa Rica, o BID projeta demanda por desenvolvedor back back-end, front end e full stack; e no estudo regional do BID, desenvolvedores web aparecem como uma ocupação relevante na Costa Rica, no Brasil e no México.
8. Especialista em nuvem e administração de sistemas
A nuvem deixou de ser uma área de ponta e passou a fazer parte do núcleo operacional de muitas empresas. O BID constata que, no México, a escassez está se agravando na computação em nuvem, além de segurança cibernética, IA e análise de dados. Na Costa Rica, entre os perfis mais procurados para o próximo ano, aparece administrador de sistemas, e no Brasil a nuvem figura entre as certificações mais exigidas pelo mercado.
9. Especialista em IA e aprendizado de máquina aplicado
A IA não só continuará na agenda, como também continuará impulsionando as contratações. O Fórum Econômico Mundial (WEF) coloca a IA e Machine Learning Specialists entre as funções tecnológicas de maior crescimento, enquanto o BID registra um rápido aumento de vagas relacionadas à IA na América Latina até 2025. No Brasil, a Brasscom também coloca o especialista em IA e Machine Learning entre os perfis mais importantes. Para as empresas, isso significa que a demanda não será apenas por pesquisadores, mas também por perfis capazes de implementar, adaptar e operar soluções de IA em contextos de negócios.
10. Arquitetura de bancos de dados e inteligência de negócios
Dois perfis menos conhecidos, mas muito importantes para 2026, são a arquitetura de bancos de dados e a inteligência de negócios. Na análise regional do BID, os arquitetos de bancos de dados figuram entre as principais profissões que exigem habilidades digitais no México e na Costa Rica, enquanto no Brasil se destacam os analistas de inteligência empresarial. A Brasscom, além disso, inclui o analista de inteligência de negócios entre os perfis mais importantes para o mercado brasileiro.
O que esses perfis revelam a uma empresa
A primeira conclusão é óbvia: o problema não é apenas “encontrar programadores”. A demanda está distribuída entre segurança, redes, suporte, dados, controle de qualidade, nuvem, desenvolvimento e BI. A segunda interpretação é mais estratégica: há oportunidades reais de inserção em funções iniciais e de especialização progressiva. A Costa Rica oferece um sinal claro disso: para os próximos 12 meses, esperava contratar 3.006 profissionais em ocupações digitais, principalmente em infraestrutura e plataformas, desenvolvimento e big data, com forte presença de perfis como HelpDesk, analista de dados, controle de qualidade, engenheiro de dados e backend.
A terceira conclusão é que a formação isolada já não é suficiente. O Fórum Econômico Mundial (WEF) destaca que 63% dos empregadores veem as lacunas de competências como seu principal obstáculo à transformação, 85% planeja priorizar a requalificação profissional e 70% espera contratar pessoas com novas habilidades. Além disso, na Costa Rica, apesar das lacunas detectadas, apenas 42% das empresas da amostra havia realizado treinamento em habilidades digitais para seus colaboradores. Para as empresas, isso reforça a necessidade de parcerias com programas que não apenas capacitem, mas também conectem formação, certificação e empregabilidade.
Há também uma dimensão clara para os setores de RH e Aquisição de Talentos: o idioma e a intermediação continuam sendo importantes. Na Costa Rica, cerca de 56% das empresas exigem pelo menos um nível intermediário de inglês para suas vagas em TI, e entre as empresas de investimento estrangeiro 100% exigem pelo menos esse nível. Isso confirma que a empregabilidade feminina na área de tecnologia não se resolve apenas com formação técnica; ela exige caminhos mais integrais que incluam inglês, preparação para vagas reais e acompanhamento para a transição para o emprego.
Por que esse tema também é importante para a RSE, a sustentabilidade e as parcerias corporativas
Para as áreas de sustentabilidade e RSE, o valor desse tipo de iniciativa reside no fato de elas conectarem inclusão e produtividade. Não se trata apenas de “oferecer oportunidades”, mas de ampliar a oferta de talentos em funções que já são procuradas pelo mercado. Quando uma empresa apoia a formação e a empregabilidade feminina em áreas como segurança cibernética, dados, suporte ou infraestrutura, ela está atuando sobre uma lacuna social e, ao mesmo tempo, sobre uma restrição real aos negócios. Essa lógica é consistente com o diagnóstico do Fórum Econômico Mundial (WEF) sobre a escassez de habilidades e com o apelo da McKinsey para tratar a lacuna de gênero na tecnologia como uma questão que pode beneficiar organizações de todos os setores.
Além disso, trata-se de uma área em que o impacto pode realmente ser medido. As empresas podem avaliar os resultados por meio de indicadores como o número de mulheres capacitadas, certificações obtidas, candidatas entrevistadas, contratações efetivas, permanência após 6 e 12 meses, aumento salarial e ampliação da rede profissional. Esse aspecto é especialmente importante em um ambiente em que cada vez mais parceiros corporativos buscam programas com rastreabilidade, e não apenas histórias inspiradoras. Essa conclusão é reforçada pela ênfase que organismos como o BID, o WEF e o Banco Mundial dão ao desenvolvimento de habilidades digitais, ao acesso efetivo e à conexão com a demanda produtiva.
Conclusão: da conversa sobre diversidade à estratégia de talentos
Em 2026, falar sobre empregos na área de tecnologia para mulheres não deveria mais se limitar a uma agenda simbólica. Os dados mostram que as empresas do México, da Costa Rica e do Brasil continuarão precisando de profissionais nas áreas de segurança cibernética, infraestrutura, suporte, controle de qualidade, dados, desenvolvimento, nuvem, IA e BI. Também mostram que a região ainda não está aproveitando plenamente o talento feminino disponível.
É aí que programas como Mujer Digital podem se tornar uma aliança estratégica para empresas, fundações corporativas e áreas de sustentabilidade: não como uma ação secundária, mas como um caminho concreto para ampliar a base de talentos em funções críticas, fortalecer a empregabilidade feminina e gerar impacto mensurável. De acordo com os dados institucionais compartilhados pelo programa para este conteúdo, o Mujer Digital já conta com mais de 5.200 formadas e as 1.100 mulheres empregadas em funções de tecnologia, o que torna possível falar de resultados em formação, certificação e inserção profissional dentro de um mesmo modelo.
Se a sua organização enfrenta dificuldades para preencher vagas na área de tecnologia, deseja fortalecer sua agenda de diversidade com foco nos negócios ou busca uma iniciativa de RSE com métricas claras, esse já não é um assunto para “deixar para depois”. Trata-se de uma questão de competitividade, talento e crescimento.
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Fontes:
- Banco Interamericano de Desenvolvimento, Que empregos estão sendo criados na América Latina? Análise das vagas de emprego publicadas online na América Latina e no Caribe (publicação online em 2025/2026).